Um monte de caracteres. Pra dar preguiça de ler.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Mundo de Escher faz mágica no CCBB

Maurits Cornelis Escher nasceu em 1898 e viveu até 1972. Durante sua vida, produziu diversas gravuras explorando perspectivas, de forma a criar cenários impossíveis. O artista, ao explorar padrões matemáticos empíricos, produzia imagens tão surpreendentes que garantiram a ele a pecha de “ilusionista” ou “mágico”. Apesar de todo esse talento, o Escher só ganhou notoriedade com a popularização do movimento Op-art, no qual diversos artistas exploraram as mais variadas ilusões de ótica, durante a década de 1950.Apesar de sua obra não ser filosoficamente alinhada com o movimento, nem mesmo cronologicamente (Escher já produzia essas gravuras muito antes do surgimento da Op-art), suas gravuras acabam sempre sendo jogadas no mesmo “saco” dos op-artistas. Principalmente pela compatibilidade de conceitos intelectuais por trás dos trabalhos.

Outra face importante do talento de Escher foi o trabalho com padronagens (ou preenchimento regular do plano). O artista desenvolveu belíssimos padrões repetidos, com figuras inusitadas: cachorros, figuras humanas, peixes, lagartos, aves... Se considerarmos que a grande maioria das obras de padrões repetidos da história foram construídas com padrões geométricos simples ou ornamentos básicos geométricos e (principalmente) florais, o valor dos padrões criados por Escher fica ainda mais evidente. O principal destaque é da obra Metamorfose, na qual ele constrói uma narrativa de transformações de padrões em um mesmo plano. Como se estivesse debochando dos padrões mais simples, tais como os listrados, os de bolinhas ou quadriculados. Esse interesse do artista pelo preenchimento regular do plano surgiu durante uma viagem à Espanha, ao entrar em contato com os belíssimos mosaicos e azulejos árabes.

Particularmente, também desenvolvi um forte gosto por azulejos há alguns anos atrás. E minhas pesquisas sobre o assunto me levaram ao trabalho do Escher, meu artista gráfico preferido desde o primeiro contato com sua obra. Quando descobri que seus trabalhos seriam expostos no CCBB, fiquei extremamente eufórica. Mas acabei me frustrando com a exposição. Mais precisamente, com a minha experiência pessoal com a exposição, que foi completamente diferente das minhas expectativas.

De alguns tempos para cá, o CCBB (RJ) investe pesado na divulgação da sua programação: desde o livreto mensal, passando por todo o tipo de anúncio impresso, forte assessoria de imprensa e estruturada presença digital.E vale enfatizar o brilhante painel de lona na fachada do prédio. A intensa divulgação funcionou e agora o CCBB é freqüentado por pessoas que nunca cultivaram o hábito de visitar espaços culturais. Isso seria ótimo, se não fosse esquisito. Para atender ao novo público, as exposições forçam a barra para apresentar um lado lúdico/interativo. Como se a massa não fosse capaz de apreciar a arte estática. Para isso, criam-se instalações e aparatos tecnológicos interativos que não pertencem ao catálogo do artista. E esse “parque de diversões” funciona: as exposições do CCBB agora vivem lotadas. A grande maioria desse público dá mais atenção às instalações e aos “fru-frus” do que à obra legítima do artista. O que é decepcionante para quem quer apreciar o que “realmente interessa”. Foi assim na exposição do Islã e se repetiu com o Escher. No total, fui até o centro cultural por cinco vezes, em um intervalo de 2 meses, e só consegui entrar na exposição uma única vez. A experiência foi desagradável, pois havia fila na frente de cada obra, e até mesmo os corredores da exposição eram desconfortáveis. Uma movimentação típica de shopping em véspera de feriado. Não combina com centro cultural. No penúltimo dia da exposição, fiz a quinta (e última) tentativa. A fila estava pior do que nunca: dava voltas no interior e circundava toda a fachada do centro cultural.

Se por um lado é muito legal saber que as pessoas estão mais interessadas em arte, bate uma certa nostalgia dos tempos em que uma exposição era praticamente “minha”. Pode soar egoísta, mas acredito que a arte deve ser experimentada em um ambiente mais reservado. Talvez a solução seja ampliar o período das exposições. Ou reduzir um pouco a comunicação. O trabalho de M.C. Escher é incrível, mas optei por apreciar através dos livros. No fim das contas, a grande revelação dessa exposição foi a constatação de que algo precisa ser feito para melhorar a experiência daqueles que querem apreciar a arte. Exposição não é feira!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Silvio Santos, o Pica-Pau doidão

Assim como alguns milhões de brasileiros, também cresci assistindo aos desenhos do Pica-Pau, na emissora daquele que todos gostariam de ter como pai: o Senor Abravanel. Na minha inocência de criança, eu achava que existissem duas séries separadas do Pica-Pau: a do pássaro normal e a do mesmo pássaro, só que doidão. Sendo que, pra mim, a versão "doidão" era muito chata.

Coincidentemente ou não, Senor Abravanel também incorpora dois personagens: o Silvio Santos normal e o Silvio Santos doidão. Mas como não ficam reprisando todos os programas do figurão, temos contato com apenas uma versão. E, atualmente, essa versão é a "doidão". Outra semelhança intrigante é em relação à "marca registrada": uma gargalhada peculiar.

O Pica-Pau normal também tem suas semelhanças com o homem do Baú "normal": os dois são personagens espertos, carismáticos e repletos de vigor. E só pra não deixar de citar, lembre-se que Silvio Santos é quase sinônomo de cabelo acaju, que é um tom de vermelho acastanhado.

Ao contrário do Pica-Pau, que começou doidão e fica cada vez mais sadio, Silvio Santos prova que é um ser humano como qualquer outro ao perder a lucidez com o passar dos anos, exatamente como acontece com suas boas e velhas colegas de auditório.

Desconfio que o segredo do Pica-Pau seja aquela fonte da juventude que ele comprou do Zeca Urubú. Infelizmente, Senor Abravanel não pode comprar uma dessas, nem com todas as suas barras de ouro (que valem mais do que dinheiro)!

O importante é que ambos os personagens, birutas ou não, marcaram a vida de muita gente. Fato que comprova que esse conceito de loucura é muito relativo. "Mais louco é quem me diz que não é feliz". Isso, sim!


Alguns vídeos para ilustrar:

Primeiro episódio do Pica-Pau (1941)


Pica-Pau vai às Cataratas (1956)


O clássico vídeo do Bambu


Silvio Santos biruta cai na água

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Publicitários: muy creativos

Este blog era pra ser o espaço onde eu publicaria meus textos maiores. Mas hoje convém deixar que as imagens falem por si. Atenção para o post anterior, no qual eu detalhei o processo criativo de um anúncio criado por mim, vencedor de um prêmio de criatividade em outubro do ano passado.

Mas veja só que coincidência! Não é que com a chegada de um novo ano letivo, algum publicitário teve uma ideia brilhante? Observe bem e desfrute do deja vu. E tire suas conclusões:




Meus parabéns à agência de Botafogo, responsável pela criação. Vocês não poderiam ter escolhido ninguém melhor para plagiar. ;)

Só me fodo

domingo, 4 de outubro de 2009

A história do prêmio

Sou uma aluna possivelmente com fama de turista. Ando um pouco desmotivada com a faculdade, com a impressão de que tudo seria facilmente resolvido em menos de um ano, mas que eles insistem em prender a gente lá por 4 anos (ou mais) por puro sadismo. Tudo bem. Acho que até poderia conviver com isso se não fosse pela presença obrigatória. É como se eles partissem do pressuposto de que seria impossível adquirir o conteúdo atribuído ao curso em qualquer outra fonte. Discordo, mas OK. Vou continuar me esforçando pra criar o hábito de dormir cedo e acordar cedo, e cursar meu bacharelado em Publicidade e Propaganda decentemente.

Aí apareceu o ECOPRESS na caixa de entrada, o tal do jornalzinho-spam que a gente sempre recebe, falando que as inscrições pro Prêmio Cid Pacheco estavam abertas. Eu tinha ouvido algum comentário sobre isso na faculdade, mas não me empolguei muito. Quando descobri que não precisava participar em dupla, me animei um pouco mais. É meio complicado trabalhar com outras pessoas quando existe uma barreira chamada DISTÂNCIA. E confesso que também não gosto de trabalhar com pessoas com as quais não rola muita empatia.

A partir da decisão de participar do prêmio, passei a visitar diariamente a página que disponibilizava o briefing, para assimilar os detalhes que eram exigidos e direcionar melhor os futuros brainstormings. Passei a anotar qualquer idéia ou associação no bloquinho que eu uso pra desorganizar as minhas anotações das aulas.

Faltando uma semana e meia pro deadline, aproveitei um tempinho que sobrou pra sentar no Arco-Íris da Lapa, pedir uma cerveja e deixar as idéias fluírem. O garçom demorou uma eternidade pra me atender e, além da cerveja, também pedi guardanapos pra escrever. Ele deve ter imaginado que eu escreveria reclamações sobre ele para o gerente. Mas ele logo percebeu que eu estava escrevendo demais pra uma simples reclamação de mau atendimento.

Todo mundo no bar olhava pra mim. Primeiro, porque eu era uma mulher sozinha, sentada e bebendo cerveja. Como se só homem pudesse fazer isso. E, segundo, que eu não parava de rabiscar mais e mais guardanapos. Excêntrico, no mínimo. Deu pra rabiscar um bocado enquanto o "homi" não chegava do trabalho. Quando chegou e leu os meus rabiscos, ele fez comentários pertinentes. Mas eu já estava mais preocupada com a cerveja a essa altura. Deixei pra avaliar os comentários dele em outro momento.

Depois do episódio do bar, em algum dos dias que se seguiram, defini um cronograma: decidiria a idéia até o final-de-semana, montaria a arte no comecinho da semana e levaria pra gráfica na quarta-feira. Depois de tantas idéias, usei a estratégia de eliminação para chegar à definitiva. Eliminei os clichês, as óbvias e as fracas. Sobrou apenas uma, mas eu não estava muito segura. A essa altura, eu já estava com uma faringite do capiroto e já estava perdendo mais aulas do que o habitual. Não só na faculdade, como nos cursos em que eu tô matriculada.

Resolvi trabalhar com o conceito do profeta Gentileza porque, primeiramente, é uma mensagem muito bonita, interessante e que se popularizou muito nos últimos tempos, graças à massificação das camisetas com a inscrição "GENTILEZA GERA GENTILEZA". Generalizando, os consumidores dessa estampa são basicamente pessoas cultas, pessoas que possivelmente se envolveriam com projetos culturais e de terceiro setor. Curiosamente, meu público-alvo.

Na noite de segunda-feira, abri o Photoshop. Pois é, trabalho no Photoshop. Já tá passando da hora de aprender de uma vez por todas a usar Illustrator, Corel e afins. Mas dessa vez não tive como fugir e fui à caça de imagens de muros, numa tentativa de reproduzir uma parede pintada pelo profeta. Depois de horas escurecendo a parede pra simular a poluição, percebi que tava muito dark. Pra clarear, usei fotos do cliente nas laterais, já que o gif que eu arrumei do "gentileza gera gentileza" ocupava o centro. Uma das minhas anotações sobre a possibilidade de usar fotos era a seguinte: "talvez seja melhor não usar as fotos... é cafona".

A essa altura, mandei mais ou menos isso pra um amigo que cursa Desenho Industrial:



"Me ajuda a salvar isso da breguice!"

O "futuro" substituiu o segundo "gentileza" porque era o caminho natural do raciocínio. Calhou do "homi" fazer essa associação de palavras mais rápido que eu. Era a palavra perfeita, fato. Só não sei quanto tempo eu teria levado pra encontrá-la sozinha. Foi assim que constatei que jornalistas são bons com essa coisa de palavras.

O amigo designer questionou vários pontos e eu percebi onde estavam as falhas. "Por que você usou esse fundo escuro?" me levou a deletar o tal do fundo da parede. E antes mesmo que ele questionasse, eu mesma ocultei as layers das fotos. Achei o fundo branco muito clean e fui tratar de preencher o vazio. Ele ajudou, me passando imagens esquisitas de exames de cérebro. Ninguém notou, mas elas entraram no fundo, quase transparentes. Aí concluí que o efeito era legal: "parece um mapa"! E fui buscar um mapa de verdade no Google, que foi estrategicamente misturado às manchas de cérebro do fundo. Satisfeita com o efeito do fundo, fui tratar da tipografia.

Como nenhuma fonte disponível prestava, fui baixar fontes no DaFont. Alguns testes depois, concluí que a cor ideal era um cinza escuro. O trabalho tava clarinho demais pra ter um texto preto. Encontrei uma fonte que me passou uma sensação agradável e, depois de algum dilema interno, optei pelo "Conheça e Colabore" (os dois verbos com letra maiúscula, pra ficar simétrico). Não fiquei totalmente satisfeita com isso, mas o "colabore" com inicial minúscula me irritava profundamente. E preparei a peça pra mandar pra gráfica. Como tinha sobrado um tempinho, resolvi investir numa idéia que surgiu repentinamente, sei lá da onde.

Desisti no seguinte ponto:



"Ah, não! Tô viajando!"

Levei a arte final na primeira gráfica que passou na frente. A moça que me atendeu estava com um crachá "TREINAMENTO" e foi atrás do gerente quando meu ouviu falar que a peça era um busdoor. Uns dez minutos depois, ela veio me avisar que eles não fazem nada tão grande. Só aí que ela foi entender que era apenas um trabalho e que as proporções não eram reais. Aí eu perguntei pra ela se ficaria legal o efeito de fundo, com as manchas clarinhas, se sairia bem na impressão. Ela se ofereceu para "consertar o problema das cores do fundo" se eu pagasse pela arte. Nesse momento, quase pulei por cima do balcão. Nem sei como me limitei a dar um fora nela e ponto. Fui embora com o material num envelope. Tratei de sair dali o mais rápido possível e só fui perceber as falhas algum tempo depois, quando parei pra analisar com calma.

Pensei que fossem de autoria da atendente em treinamento, mas quando abri o projeto no PC, percebi que as falhas eram minhas mesmo. O GIF tava com resolução baixa. Acabei tendo que praticamente redesenhar a imagem principal da peça com o mouse. Também precisei fazer uma pequena correção na tipografia do endereço do site. A minha sorte foi que eu decidi ir na gráfica com dois dias de vantagem. Deu tempo de consertar e ter o material certo no dia da deadline. Porém, minha faringite tinha piorado e eu estava tão insegura que quase desisti de ir até a Urca só pra imprimir a versão final e me inscrever. O "homi" me aconselhou a ir e eu segui o conselho meio que no piloto automático. Imprimi a arte final e comprei o material da prancha no Rio Sul. Aí segui pras mesinhas da faculdade de Economia, pra cortar, colar e preencher ficha de inscrição.

Done! Fui tratar de me recuperar da faringite, mas não deu muito certo. Acompanhei a divulgação do shortlist pela internet, porque não tava dando pra ir pra faculdade. Muita dor de garganta, tosse e catarro. Perdi a venda de ingressos do Interseção e a maioria dos dias do evento. Uma pena, porque é um ótimo evento. Quando tentei comprar o ingresso para o último dia, o dia da divulgação dos vencedores, descobri que estavam esgotados. Mas eu era finalista e estaria lá nem que fosse pra acompanhar do lado de fora!

Chegou o dia tão esperado. O xarope, além de me deixar grogue, me deixou com a cara cheia de espinhas. Horrível! Consegui o ingresso e sentei sozinha, num cantinho. As mãos suavam. A sensação que eu tinha era de que o momento da premiação não chegaria nunca. Por mais que eu não estivesse satisfeita com a arte final, eu sabia que o conceito era bom. Foram quatro horas de tortura até anunciarem a premiação. Exibiram o 3º colocado e chamaram os responsáveis por ele. Não era o meu. Exibiram o 2º. Não era o meu. Foi aí que começou a anacronia.

Uma das minhas primeiras idéias no dia do boteco foi o título "anúncio premiado". Não sei o que meu cérebro processou primeiro, se foi o meu nome ou se foi a imagem:



Eu não sei como me comportar nessas ocasiões. Não sei que cara fazer, o que dizer, ou sei lá. Não tenho esse talento social. Peguei meu prêmio e voltei correndo pro meu lugar, lamentando não ter a opção de fazer isso por baixo do chão. Ganhei uma bolsa num curso que eu realmente precisava fazer. Finalmente vou aprender a usar o Corel e o Illustrator. A plaquinha também é uma gracinha e... Bom, quando eu tiver uma conclusão, juro que aviso a vocês. Ainda tô no susto.

(E na tosse.)

Baseado em fatos reais

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Príncipe Retalhado

Era uma vez uma jovem muito bela e solitária. Um belo dia, após uma situação trágica, essa jovem conheceu um belo rapaz sem defeitos e os dois se apaixonaram, casaram e viveram felizes para sempre.

Cool. ¬¬

Ok, vamos aos fatos. A mocinha dessa história não passa de uma virgem encalhada. Possivelmente por causa de um excesso de timidez ou por falta de maturidade mesmo (afinal, não existe essa coisa de crescer de acordo com a vontade do mundo). Também existem as possibilidades de (um) a garota ter sido superprotegida pelos pais e (dois) apenas ser chata mesmo. Anyway, apesar de seu nobre coração e de seu envolvimento em atividades filantrópicas (claro, elas sempre são heroínas sociais), o fato é que a monotonia passa longe da visibilidade - ponto de partida de qualquer relacionamento, amoroso ou não. Um mínimo de visibilidade é crucial para ser identificada por um príncipe encantado que provavelmente está a quilômetros de distância. Mas o legal é que nos contos de fada, apesar de toda a chatice, apesar de toda a rotina e apesar de todo isolamento, as mocinhas acabam "esbarrando" no príncipe encantado. Ou seja, no tal cara sem defeitos. É como se o incidente amoroso fosse uma compensação por todo o vazio dedicado a uma vida inteira. "Fique sozinha, espere, seja boazinha, espere, espere mais um pouco"... e TCHARAN! Olha o príncipe encantado ali, caído aos seus pés, antes mesmo que você complete seus vinte aninhos! Claro, porque você já viu alguma mocinha de contos de fadas com cabelos brancos, rugas ou qualquer outra marca de idade? Na-na-ni-na! Conclusão: mantenha-se chata, submissa e virgem, que daqui a pouco abre um buraco no chão e, dele, sai o príncipe encantado num cavalo branco (talvez até montado num unicórnio, vai saber?). Sim, senhor(a)! Como não?

Mas como a tentação é grande, muitas meninas não resistem às investidas do capiroto. E o que acontece com elas? Automaticamente se transformam em monstras mal-educadas, feias e grosseiras, e tratam de descontar suas frustrações nas pobres virgenzinhas. Essas mulheres comuns são punidas pela maldição de só atraírem os homens problemático, do tipo que sempre sofre de amores pelas "princesinhas", mas não arrancam nem um mero olhar de rabo-de-olho de suas musas perfeitas. Sim, eles também são amaldiçoados. Terrível, não? E ainda fica pior.

A variação mais extrema da desgraça feminina é se transformar na madrasta (também conhecida como bruxamá). São poucas as mulheres com tamanha resistência ao sofrimento que conseguem chegar a esse estágio. A maioria acaba se convertendo para o cristianismo antes disso. Ou cometendo suicídio. Ou até mesmo transferindo sua afetividade a outras mulheres. Muitas também preferem a solidão, numa tentativa fadada ao fracasso de recuperar a magia que se atribui às virgenzinhas passivas. Mas, voltando às madrastas, essa categoria é composta por mulheres que foram do grupo intermediário, o das mulheres comuns. A diferença é que elas conseguem casar com um príncipe encantado, mesmo depois da maldição. E, claro, não se dão bem. Normalmente, ao casar com as bruxamás, os príncipes já perderam o encanto junto com suas princesas, que provavelmente morreram de forma trágica e deixaram herdeiros por criar, fardo que a madrasta acaba sendo obrigada a assumir. E isso aumenta ainda mais a desgraça das mulheres que chegam a este estágio. O príncipe (que a essa altura não passa de um rei-fantoche) não é perfeito, mas sua filha - pura e casta - carrega toda aquela energia de virgem, atraindo a atenção de todos os machos disponíveis na área. Mas de nenhum príncipe encantado - ainda. E a bruxamá morre de ciúmes disso.

O ponto é:

"A beleza está nos olhos de quem vê e a ignorância é uma benção."

Analisando mais a fundo, como a mocinha sabe que encontrou o príncipe encantado? Como é que ela sempre acerta? Bom, sem base comparativa fica fácil de acreditar que qualquer um seja perfeito.

"Mas eles não vivem felizes para sempre?"

Porraniúma! Vivem felizes para sempre enquanto a castidade se mantém! A castidade é eterna. Quando acaba, a mulher se transforma em uma monstra eternamente amaldiçoada e a castidade descansa em paz junto com a princesa que não existe mais. Apesar da mudança, o príncipe se satisfaz com a idéia de possuir uma mulher e a transforma no seu reino particular. E, assim, passa a se sentir um rei. E também vira outra pessoa, um homem cheio de defeitos comum.

É daí que vem essa coisa de "príncipe encantado": são futuros reis. Desse jeito aí que eu contei ali em cima. E só.

Os príncipes só se tornam encantados a partir da falta de parâmetros comparativos. Até porque esse príncipe encantado é sempre alguém que apareceu repentinamente e ainda não se conhece profundamente. Eles preferem as inocentes, lógico, porque a capacidade delas de notar seus defeitos é praticamente nula e até que elas tenham tempo de aprender tudo que precisam, eles já as conquistaram, foram coroados e reinam soberanos e absolutos. Com o tempo,surge a insegurança. A mulher fica mais esperta (ou talvez apenas menos inocente) e começa a notar certas imperfeições. É aí que o homem trava uma verdadeira guerra para manter o poder, que pode ser através de três técnicas:

1. Adestramento. Eles manipulam suas parceiras a fim de levá-las de volta à submissão perdida. As técnicas aplicadas variam desde isolamento social e cultural, ameaças de abandono e até mesmo à violência verbal e física.

2. Fingimento. Requer uma boa dose de cara-de-pau, técnicas de interpretação e bons álibis por parte do monarca. Também requer uma boa dose de boa vontade da mulher e um certo grau de inocência remanescente. Com isso, o homem finge estar satisfeito e vai sassaricar com as monstras, numa busca incessante por novas conquistas, seja elas para expansão territorial ou para colonização. Neste caso, o homem vê a estratégia como investimento, pro caso da queda da sua monarquia não transformá-lo novamente em plebeu.

3. Abdicação. Como o próprio nome diz, o homem prefere abandonar o reino e recomeçar do zero. É mais raro entre conservadores e conformistas, porém mais comum entre artistas, cientistas e intelectuais em geral. Para abdicar, o homem precisa de uma motivação externa à vida amorosa e transfere toda a sua energia a essa motivação. Com isso, a perda do poder não significa tanto, já que o mocarca constrói um novo reino baseado em realizações individuais e não em subjugação.

A falta de provas e exemplos concretos de sucesso amoroso eterno leva à conclusão de que príncipe encantado não existe. Quanto mais relacionamentos, maior a base para constatar que todos os homens têm defeitos e qualidades. O importante é o que eles oferecem, se são os defeitos ou as virtudes. A boa vontade é maior que tudo e uma relação só funciona enquanto as duas partes envolvidas querem que funcione. Infelizmente, acho bastante difícil que duas pessoas consigam resistir às rotinas e monotonias por uma vida inteira, em perfeita sincronia. O tal "homem perfeito", pra existir, teria que ser um Frankenstein composto por vários pedaços de vários homens diferentes, unidos em laboratório. Não teria muito appeal. Mas o mais legal nisso tudo é que, mesmo com todas essas certezas empíricas, as pessoas ainda tentam. E não existe nada mais perfeito do que um relacionamento construído a partir da vontade mútua de ser feliz e fazer feliz. Não é tão complicado assim. Quiçá.

Todo mundo tá casando. E eu, surtando.