Um monte de caracteres. Pra dar preguiça de ler.

domingo, 4 de outubro de 2009

A história do prêmio

Sou uma aluna possivelmente com fama de turista. Ando um pouco desmotivada com a faculdade, com a impressão de que tudo seria facilmente resolvido em menos de um ano, mas que eles insistem em prender a gente lá por 4 anos (ou mais) por puro sadismo. Tudo bem. Acho que até poderia conviver com isso se não fosse pela presença obrigatória. É como se eles partissem do pressuposto de que seria impossível adquirir o conteúdo atribuído ao curso em qualquer outra fonte. Discordo, mas OK. Vou continuar me esforçando pra criar o hábito de dormir cedo e acordar cedo, e cursar meu bacharelado em Publicidade e Propaganda decentemente.

Aí apareceu o ECOPRESS na caixa de entrada, o tal do jornalzinho-spam que a gente sempre recebe, falando que as inscrições pro Prêmio Cid Pacheco estavam abertas. Eu tinha ouvido algum comentário sobre isso na faculdade, mas não me empolguei muito. Quando descobri que não precisava participar em dupla, me animei um pouco mais. É meio complicado trabalhar com outras pessoas quando existe uma barreira chamada DISTÂNCIA. E confesso que também não gosto de trabalhar com pessoas com as quais não rola muita empatia.

A partir da decisão de participar do prêmio, passei a visitar diariamente a página que disponibilizava o briefing, para assimilar os detalhes que eram exigidos e direcionar melhor os futuros brainstormings. Passei a anotar qualquer idéia ou associação no bloquinho que eu uso pra desorganizar as minhas anotações das aulas.

Faltando uma semana e meia pro deadline, aproveitei um tempinho que sobrou pra sentar no Arco-Íris da Lapa, pedir uma cerveja e deixar as idéias fluírem. O garçom demorou uma eternidade pra me atender e, além da cerveja, também pedi guardanapos pra escrever. Ele deve ter imaginado que eu escreveria reclamações sobre ele para o gerente. Mas ele logo percebeu que eu estava escrevendo demais pra uma simples reclamação de mau atendimento.

Todo mundo no bar olhava pra mim. Primeiro, porque eu era uma mulher sozinha, sentada e bebendo cerveja. Como se só homem pudesse fazer isso. E, segundo, que eu não parava de rabiscar mais e mais guardanapos. Excêntrico, no mínimo. Deu pra rabiscar um bocado enquanto o "homi" não chegava do trabalho. Quando chegou e leu os meus rabiscos, ele fez comentários pertinentes. Mas eu já estava mais preocupada com a cerveja a essa altura. Deixei pra avaliar os comentários dele em outro momento.

Depois do episódio do bar, em algum dos dias que se seguiram, defini um cronograma: decidiria a idéia até o final-de-semana, montaria a arte no comecinho da semana e levaria pra gráfica na quarta-feira. Depois de tantas idéias, usei a estratégia de eliminação para chegar à definitiva. Eliminei os clichês, as óbvias e as fracas. Sobrou apenas uma, mas eu não estava muito segura. A essa altura, eu já estava com uma faringite do capiroto e já estava perdendo mais aulas do que o habitual. Não só na faculdade, como nos cursos em que eu tô matriculada.

Resolvi trabalhar com o conceito do profeta Gentileza porque, primeiramente, é uma mensagem muito bonita, interessante e que se popularizou muito nos últimos tempos, graças à massificação das camisetas com a inscrição "GENTILEZA GERA GENTILEZA". Generalizando, os consumidores dessa estampa são basicamente pessoas cultas, pessoas que possivelmente se envolveriam com projetos culturais e de terceiro setor. Curiosamente, meu público-alvo.

Na noite de segunda-feira, abri o Photoshop. Pois é, trabalho no Photoshop. Já tá passando da hora de aprender de uma vez por todas a usar Illustrator, Corel e afins. Mas dessa vez não tive como fugir e fui à caça de imagens de muros, numa tentativa de reproduzir uma parede pintada pelo profeta. Depois de horas escurecendo a parede pra simular a poluição, percebi que tava muito dark. Pra clarear, usei fotos do cliente nas laterais, já que o gif que eu arrumei do "gentileza gera gentileza" ocupava o centro. Uma das minhas anotações sobre a possibilidade de usar fotos era a seguinte: "talvez seja melhor não usar as fotos... é cafona".

A essa altura, mandei mais ou menos isso pra um amigo que cursa Desenho Industrial:



"Me ajuda a salvar isso da breguice!"

O "futuro" substituiu o segundo "gentileza" porque era o caminho natural do raciocínio. Calhou do "homi" fazer essa associação de palavras mais rápido que eu. Era a palavra perfeita, fato. Só não sei quanto tempo eu teria levado pra encontrá-la sozinha. Foi assim que constatei que jornalistas são bons com essa coisa de palavras.

O amigo designer questionou vários pontos e eu percebi onde estavam as falhas. "Por que você usou esse fundo escuro?" me levou a deletar o tal do fundo da parede. E antes mesmo que ele questionasse, eu mesma ocultei as layers das fotos. Achei o fundo branco muito clean e fui tratar de preencher o vazio. Ele ajudou, me passando imagens esquisitas de exames de cérebro. Ninguém notou, mas elas entraram no fundo, quase transparentes. Aí concluí que o efeito era legal: "parece um mapa"! E fui buscar um mapa de verdade no Google, que foi estrategicamente misturado às manchas de cérebro do fundo. Satisfeita com o efeito do fundo, fui tratar da tipografia.

Como nenhuma fonte disponível prestava, fui baixar fontes no DaFont. Alguns testes depois, concluí que a cor ideal era um cinza escuro. O trabalho tava clarinho demais pra ter um texto preto. Encontrei uma fonte que me passou uma sensação agradável e, depois de algum dilema interno, optei pelo "Conheça e Colabore" (os dois verbos com letra maiúscula, pra ficar simétrico). Não fiquei totalmente satisfeita com isso, mas o "colabore" com inicial minúscula me irritava profundamente. E preparei a peça pra mandar pra gráfica. Como tinha sobrado um tempinho, resolvi investir numa idéia que surgiu repentinamente, sei lá da onde.

Desisti no seguinte ponto:



"Ah, não! Tô viajando!"

Levei a arte final na primeira gráfica que passou na frente. A moça que me atendeu estava com um crachá "TREINAMENTO" e foi atrás do gerente quando meu ouviu falar que a peça era um busdoor. Uns dez minutos depois, ela veio me avisar que eles não fazem nada tão grande. Só aí que ela foi entender que era apenas um trabalho e que as proporções não eram reais. Aí eu perguntei pra ela se ficaria legal o efeito de fundo, com as manchas clarinhas, se sairia bem na impressão. Ela se ofereceu para "consertar o problema das cores do fundo" se eu pagasse pela arte. Nesse momento, quase pulei por cima do balcão. Nem sei como me limitei a dar um fora nela e ponto. Fui embora com o material num envelope. Tratei de sair dali o mais rápido possível e só fui perceber as falhas algum tempo depois, quando parei pra analisar com calma.

Pensei que fossem de autoria da atendente em treinamento, mas quando abri o projeto no PC, percebi que as falhas eram minhas mesmo. O GIF tava com resolução baixa. Acabei tendo que praticamente redesenhar a imagem principal da peça com o mouse. Também precisei fazer uma pequena correção na tipografia do endereço do site. A minha sorte foi que eu decidi ir na gráfica com dois dias de vantagem. Deu tempo de consertar e ter o material certo no dia da deadline. Porém, minha faringite tinha piorado e eu estava tão insegura que quase desisti de ir até a Urca só pra imprimir a versão final e me inscrever. O "homi" me aconselhou a ir e eu segui o conselho meio que no piloto automático. Imprimi a arte final e comprei o material da prancha no Rio Sul. Aí segui pras mesinhas da faculdade de Economia, pra cortar, colar e preencher ficha de inscrição.

Done! Fui tratar de me recuperar da faringite, mas não deu muito certo. Acompanhei a divulgação do shortlist pela internet, porque não tava dando pra ir pra faculdade. Muita dor de garganta, tosse e catarro. Perdi a venda de ingressos do Interseção e a maioria dos dias do evento. Uma pena, porque é um ótimo evento. Quando tentei comprar o ingresso para o último dia, o dia da divulgação dos vencedores, descobri que estavam esgotados. Mas eu era finalista e estaria lá nem que fosse pra acompanhar do lado de fora!

Chegou o dia tão esperado. O xarope, além de me deixar grogue, me deixou com a cara cheia de espinhas. Horrível! Consegui o ingresso e sentei sozinha, num cantinho. As mãos suavam. A sensação que eu tinha era de que o momento da premiação não chegaria nunca. Por mais que eu não estivesse satisfeita com a arte final, eu sabia que o conceito era bom. Foram quatro horas de tortura até anunciarem a premiação. Exibiram o 3º colocado e chamaram os responsáveis por ele. Não era o meu. Exibiram o 2º. Não era o meu. Foi aí que começou a anacronia.

Uma das minhas primeiras idéias no dia do boteco foi o título "anúncio premiado". Não sei o que meu cérebro processou primeiro, se foi o meu nome ou se foi a imagem:



Eu não sei como me comportar nessas ocasiões. Não sei que cara fazer, o que dizer, ou sei lá. Não tenho esse talento social. Peguei meu prêmio e voltei correndo pro meu lugar, lamentando não ter a opção de fazer isso por baixo do chão. Ganhei uma bolsa num curso que eu realmente precisava fazer. Finalmente vou aprender a usar o Corel e o Illustrator. A plaquinha também é uma gracinha e... Bom, quando eu tiver uma conclusão, juro que aviso a vocês. Ainda tô no susto.

(E na tosse.)

Baseado em fatos reais

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Príncipe Retalhado

Era uma vez uma jovem muito bela e solitária. Um belo dia, após uma situação trágica, essa jovem conheceu um belo rapaz sem defeitos e os dois se apaixonaram, casaram e viveram felizes para sempre.

Cool. ¬¬

Ok, vamos aos fatos. A mocinha dessa história não passa de uma virgem encalhada. Possivelmente por causa de um excesso de timidez ou por falta de maturidade mesmo (afinal, não existe essa coisa de crescer de acordo com a vontade do mundo). Também existem as possibilidades de (um) a garota ter sido superprotegida pelos pais e (dois) apenas ser chata mesmo. Anyway, apesar de seu nobre coração e de seu envolvimento em atividades filantrópicas (claro, elas sempre são heroínas sociais), o fato é que a monotonia passa longe da visibilidade - ponto de partida de qualquer relacionamento, amoroso ou não. Um mínimo de visibilidade é crucial para ser identificada por um príncipe encantado que provavelmente está a quilômetros de distância. Mas o legal é que nos contos de fada, apesar de toda a chatice, apesar de toda a rotina e apesar de todo isolamento, as mocinhas acabam "esbarrando" no príncipe encantado. Ou seja, no tal cara sem defeitos. É como se o incidente amoroso fosse uma compensação por todo o vazio dedicado a uma vida inteira. "Fique sozinha, espere, seja boazinha, espere, espere mais um pouco"... e TCHARAN! Olha o príncipe encantado ali, caído aos seus pés, antes mesmo que você complete seus vinte aninhos! Claro, porque você já viu alguma mocinha de contos de fadas com cabelos brancos, rugas ou qualquer outra marca de idade? Na-na-ni-na! Conclusão: mantenha-se chata, submissa e virgem, que daqui a pouco abre um buraco no chão e, dele, sai o príncipe encantado num cavalo branco (talvez até montado num unicórnio, vai saber?). Sim, senhor(a)! Como não?

Mas como a tentação é grande, muitas meninas não resistem às investidas do capiroto. E o que acontece com elas? Automaticamente se transformam em monstras mal-educadas, feias e grosseiras, e tratam de descontar suas frustrações nas pobres virgenzinhas. Essas mulheres comuns são punidas pela maldição de só atraírem os homens problemático, do tipo que sempre sofre de amores pelas "princesinhas", mas não arrancam nem um mero olhar de rabo-de-olho de suas musas perfeitas. Sim, eles também são amaldiçoados. Terrível, não? E ainda fica pior.

A variação mais extrema da desgraça feminina é se transformar na madrasta (também conhecida como bruxamá). São poucas as mulheres com tamanha resistência ao sofrimento que conseguem chegar a esse estágio. A maioria acaba se convertendo para o cristianismo antes disso. Ou cometendo suicídio. Ou até mesmo transferindo sua afetividade a outras mulheres. Muitas também preferem a solidão, numa tentativa fadada ao fracasso de recuperar a magia que se atribui às virgenzinhas passivas. Mas, voltando às madrastas, essa categoria é composta por mulheres que foram do grupo intermediário, o das mulheres comuns. A diferença é que elas conseguem casar com um príncipe encantado, mesmo depois da maldição. E, claro, não se dão bem. Normalmente, ao casar com as bruxamás, os príncipes já perderam o encanto junto com suas princesas, que provavelmente morreram de forma trágica e deixaram herdeiros por criar, fardo que a madrasta acaba sendo obrigada a assumir. E isso aumenta ainda mais a desgraça das mulheres que chegam a este estágio. O príncipe (que a essa altura não passa de um rei-fantoche) não é perfeito, mas sua filha - pura e casta - carrega toda aquela energia de virgem, atraindo a atenção de todos os machos disponíveis na área. Mas de nenhum príncipe encantado - ainda. E a bruxamá morre de ciúmes disso.

O ponto é:

"A beleza está nos olhos de quem vê e a ignorância é uma benção."

Analisando mais a fundo, como a mocinha sabe que encontrou o príncipe encantado? Como é que ela sempre acerta? Bom, sem base comparativa fica fácil de acreditar que qualquer um seja perfeito.

"Mas eles não vivem felizes para sempre?"

Porraniúma! Vivem felizes para sempre enquanto a castidade se mantém! A castidade é eterna. Quando acaba, a mulher se transforma em uma monstra eternamente amaldiçoada e a castidade descansa em paz junto com a princesa que não existe mais. Apesar da mudança, o príncipe se satisfaz com a idéia de possuir uma mulher e a transforma no seu reino particular. E, assim, passa a se sentir um rei. E também vira outra pessoa, um homem cheio de defeitos comum.

É daí que vem essa coisa de "príncipe encantado": são futuros reis. Desse jeito aí que eu contei ali em cima. E só.

Os príncipes só se tornam encantados a partir da falta de parâmetros comparativos. Até porque esse príncipe encantado é sempre alguém que apareceu repentinamente e ainda não se conhece profundamente. Eles preferem as inocentes, lógico, porque a capacidade delas de notar seus defeitos é praticamente nula e até que elas tenham tempo de aprender tudo que precisam, eles já as conquistaram, foram coroados e reinam soberanos e absolutos. Com o tempo,surge a insegurança. A mulher fica mais esperta (ou talvez apenas menos inocente) e começa a notar certas imperfeições. É aí que o homem trava uma verdadeira guerra para manter o poder, que pode ser através de três técnicas:

1. Adestramento. Eles manipulam suas parceiras a fim de levá-las de volta à submissão perdida. As técnicas aplicadas variam desde isolamento social e cultural, ameaças de abandono e até mesmo à violência verbal e física.

2. Fingimento. Requer uma boa dose de cara-de-pau, técnicas de interpretação e bons álibis por parte do monarca. Também requer uma boa dose de boa vontade da mulher e um certo grau de inocência remanescente. Com isso, o homem finge estar satisfeito e vai sassaricar com as monstras, numa busca incessante por novas conquistas, seja elas para expansão territorial ou para colonização. Neste caso, o homem vê a estratégia como investimento, pro caso da queda da sua monarquia não transformá-lo novamente em plebeu.

3. Abdicação. Como o próprio nome diz, o homem prefere abandonar o reino e recomeçar do zero. É mais raro entre conservadores e conformistas, porém mais comum entre artistas, cientistas e intelectuais em geral. Para abdicar, o homem precisa de uma motivação externa à vida amorosa e transfere toda a sua energia a essa motivação. Com isso, a perda do poder não significa tanto, já que o mocarca constrói um novo reino baseado em realizações individuais e não em subjugação.

A falta de provas e exemplos concretos de sucesso amoroso eterno leva à conclusão de que príncipe encantado não existe. Quanto mais relacionamentos, maior a base para constatar que todos os homens têm defeitos e qualidades. O importante é o que eles oferecem, se são os defeitos ou as virtudes. A boa vontade é maior que tudo e uma relação só funciona enquanto as duas partes envolvidas querem que funcione. Infelizmente, acho bastante difícil que duas pessoas consigam resistir às rotinas e monotonias por uma vida inteira, em perfeita sincronia. O tal "homem perfeito", pra existir, teria que ser um Frankenstein composto por vários pedaços de vários homens diferentes, unidos em laboratório. Não teria muito appeal. Mas o mais legal nisso tudo é que, mesmo com todas essas certezas empíricas, as pessoas ainda tentam. E não existe nada mais perfeito do que um relacionamento construído a partir da vontade mútua de ser feliz e fazer feliz. Não é tão complicado assim. Quiçá.

Todo mundo tá casando. E eu, surtando.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Linguagem audiovisual e desenhos animados

A evolução da linguagem audiovisual reflete a evolução da própria sociedade. O "fazer televisão" sempre acompanhou os parâmetros de cada geração. Assim, podemos tomar qualquer gênero televisivo como referência para traçar essa evolução. A Rede Globo apresenta, em suas manhãs, uma sequência de desenhos animados de gerações diferentes, origens diferentes e públicos diferentes. A diferença entre os estilos é muito clara. As animações da Disney são as mais antigas e apresentam valores de uma sociedade americana romântica, fantástica e machista. O andamento de um episódio é artístico: os movimentos dos personagens são suaves, a trilha sonora acompanha tal suavidade e o ritmo é lento, permitindo que o espectador possa acompanhar toda a evolução artística da obra. Na mesma sequência, é exibido “Dragon Ball Z”, desenho japonês baseado num mangá, que evidencia traços da cultura nipônica, tais como valores sociais (“espiritualidade” e artes marciais), conteúdo e ritmo da narrativa (detalhista e complexo). “Bob Esponja” e “Padrinhos Mágicos”, criados em 1999, são caracterizados por uma linguagem mais dinâmica e sarcástica, e ritmo acelerado. As animações infantis criadas após a popularização da Internet ganharam um ritmo cada vez mais acelerado. Tal adaptação é um exemplo pertinente do diálogo entre a televisão e a sociedade. As mudanças na estruturação do pensamento provocadas pela inserção em um mundo interconectado e instantâneo refletiram-se até mesmo na produção de conteúdo televisivo para as crianças. “Yin Yang Yo”, desenho animado criado em 2006, funciona como o extremo oposto aos desenhos clássicos da Disney no contexto da programação infantil matinal diária da principal emissora do país. O ritmo da animação é extremamente acelerado. Diversos eventos acontecem simultaneamente e rapidamente, a narrativa é construída através de discursos secundários e pouco explícitos. O público infantil dos anos 80 era incapaz de acompanhar tal ritmo e precisava de um direcionamento mais claro aos pontos essenciais para a compreensão da narrativa. Porém, no contexto atual, o desenho animado se mostra totalmente compatível com o ritmo de absorção do público. Contrapor os clássicos da Disney e um desenho de produção recente como “Yin Yang Yo”, produtos voltados para o público infantil, é o exemplo mais óbvio para concretizar a idéia de diálogo entre público e produto, e suas evoluções ao longo da história.

A linguagem audiovisual apresenta o mesmo comportamento histórico que qualquer outra linguagem. Portanto, essa questão toda da evolução histórica constitui um olhar linguístico sobre a linguagem audiovisual e evidencia que ela se encontra viva, ativa e em constante desenvolvimento.

Trecho de uma prova da faculdade

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Vida plana

O "eu virtual" se faz cada vez mais presente num mundo onde cada vez trabalhamos mais e realizamos mais atividades. Sem a mesma dedicação de outrora, afinal, frequentemente são atividades paralelas e simultâneas. A possibilidade de anular distâncias criou uma renovação no conceito de "comunidade", que anteriormente continha certo valor geográfico. Atualmente, "comunidade" se refere a um grupo com algum interesse em comum. Mesmo que seus membros se encontrem cada um num país diferente ou apresentem outras diferenças brutais. A proximidade não precisa mais ser física. É suficiente se acontecer em âmbito virtual.

"Não sou eu. É um holograma."

A popularização de páginas pessoais, blogs, fotologs, perfis e mais uma infinidade de possibilidades de posicionamento em rede tem mudado profundamente as relações sociais. Se há 20 anos atrás era preciso telefonar e manter um diálogo que exigia a atenção para conversar com alguém, hoje é possível conversar virtualmente em tempo real. A diferença é que não é tão instantâneo assim. A emissão da mensagem é instantânea. Porém, a recepção dessa mensagem depende da vontade do receptor. Uma janela do msn piscando ou um scrap no Orkut ilustram bem essa idéia. Posso continuar escrevendo aqui ou clicar na janela para visualizar o que me foi dito. Posso entrar no Orkut para saber se me deixaram algum scrap ou esperar mais algumas horas. O universo virtual oferece autonomia no processo de emissão e recepção de mensagens. A mensagem é emitida no momento que for conveniente ao emissor, independente da disponibilidade do receptor. E, por sua vez, o receptor escolhe o momento que considera mais apropriado para se dedicar à recepção das mensagens.

Páginas de perfil podem ser acessadas a qualquer momento, independentemente do dono do perfil estar conectado ou não. O usuário de um perfil online constrói uma descrição pessoal através desse espaço virtual e, com isso, cria a ilusão de que está constantemente acessível, já que é possível ter contato com a sua individualidade e dirigir-lhe a palavra em qualquer momento, de qualquer ponto ligado à rede.

"Só dá valor quando perde."

A ilusão de que as pessoas estão constantemente acessíveis cria uma certa sensação de conformismo e descaso quanto à manutenção de vínculos afetivos. A garantia da disponibilidade, mesmo que virtual, provoca uma desvalorização das relações presenciais. Com isso, grande parte das relações interpessoais acontece em ambientes virtuais, intercaladas por gaps variáveis e de forma consideravelmente superficial, já que o usuário da rede nunca se dedica a uma atividade só e divide sua atenção entre diversas atividades paralelas, minimizando a atenção direcionada a cada uma delas e, consequentemente, a absorção completa dessas experiências.

"A intimidade é uma merda."

A possibilidade de encontrar uma pessoa virtualmente a qualquer momento permite a procrastinação desse momento. A expressão da língua inglesa "take for granted" define perfeitamente a relação que se estabelece entre pessoas virtualmente acessíveis. É a mesma relação que se estabelece, por exemplo, nas relações entre familiares ou pessoas com avançado nível de intimidade. A preocupação em alimentar e otimizar as relações próximas desaparece completamente, dando lugar a um menosprezo inconsequente que reduz consideravelmente o feedback oferecido nas relações interpessoais de base. Outra característica desse descuido é a frieza com a qual as relações mais íntimas são tratadas nos ambientes virtuais. O contato através de uma tela luminosa é usado como alternativa ao contato sensorial. Imagens bidimensionais, textos e (com menor frequência) elementos audiovisuais substituem os estímulos sensoriais tridimensionais do contato visual direto, da audição direta (sem efeitos ou compressão), do tato, do olfato e (por que não?) do paladar. A experiência real é estruturalmente mais completa que a virtual, pois exige mais da percepção humana, característica que intensifica sua solidez enquanto experiência de vida.

"Ser humano, um ser social"

Não há como negar que o ser humano é um ser social e precisa estar inserido numa sociedade para se sentir coerente enquanto animal. A necessidade de se relacionar com outros seres humanos é facilmente provada ao analisar casos de sofrimento causado por solidão, sofrimentos causados pela perda de pessoas queridas e sofrimento causado pelo esvaziamento resultante de determinadas privações sociais. O ser humano precisa biologicamente do contato físico. E precisa psicologicamente do contato social. O contato virtual é o maior empecilho para a realização de um contato físico casual. E a ausência física de pessoas também pode provocar uma reação de abstinência social subconsciente.

"Cada um no seu quadrado"

O resultado dessa "nova ordem virtual" é o isolamento de pessoas em frente às telas de computadores, onde realizam uma enorme variedade de atividades e podem chegar a casos extremos de dedicação exclusiva à vida virtual. A divulgação da própria vida na rede permite que qualquer pessoa interessada na vida de alguém tenha acesso a essas informações sem que se faça necessário que a pessoa em questão se prive de suas atividades a ponto de propagar seu cotidiano entre os interessados. Com a possibilidade de contar a história apenas uma vez para o máximo de pessoas possível e poupar o tempo de deslocamento aos encontros "ao vivo" que deixam de acontecer, o homem virtual pode realizar uma quantidade maior de atividades, manter uma quantidade maior de vínculos afetivos (superficiais, até porque acontecem através da superfíe de um monitor) e, assim, acreditar-se (virtualmente) realizado. Porém, ao deixar o contexto real em segundo plano, também esquecemos que o nosso corpo pertence ao mundo real e que é esse mundo real o responsável pela manutenção da nossa vida biológica. Sem vida biológica, a produção intelectual, que é tão facilmente disponibilizada em âmbito virtual, deixa de acontecer. A existência em registro pode ser extremamente satisfatória quando não se considera a efemeridade da vida real. Apesar de ideologicamente válida, a eternidade virtual não é capaz de imortalizar a nossa capacidade de produzir e sentir. Sem consciência, não há vida. Pelo menos para a gente. E, na posição de espectadores da nossa vida, é o nosso olhar que determina se existimos ou não. Nossas realizações e tudo que deixamos pra trás são apenas produtos da nossa existência. E é isso que oferecemos ao mundo: produtos. Nada mais compatível com a realidade capitalista do que priorizar o produto em vez da presença. Afinal, o consumo de um produto é definitivo, oferece a relação de posse que nenhuma relação presencial poderia oferecer. E, como a escassez de relações reais provoca uma carência excessiva, a sensação de que a posse é mais satisfatória do que a construção imprevisível funciona como o principal combustível do sistema capitalista.

Os Jetsons

A rápida evolução tecnológica tende a tornar os ambientes virtuais cada vez mais acessíveis e amplos. Com isso, o universo virtual fica cada vez mais irresistível. A exposição pessoal no ambiente virtual supre a necessidade individual de expor a própria vida como forma de concretizá-la, de torna-lá real. Afinal, se ninguém viu, não aconteceu. Em contrapartida, a acessibilidade às exposições individuais de outras pessoas também supre a necessidade de absorção de experiências alheias. No fundo, ainda se trata de uma relação de troca. Porém, não acontece mais de forma direta. A troca é indireta e depende da iniciativa dos envolvidos no processo. Podemos considerar que há um certo "socialismo" de exposições pessoais. Todos podem se fazer acessíveis a todos. É como se todos pudessem ser de todos. Isso só não se concretiza absolutamente porque muitas pessoas optam por não se expor. Porém, temo que essa evolução seja um caminho sem volta, já que a sociedade se molda às próprias alterações essenciais. Se existe a possibilidade de se dedicar, mesmo que virtualmente, a mais tarefas, pode-se evoluir para uma cultura na qual esse comportamento seja massificado e até mesmo cobrado. O resultado disso seria a intensificação de relações estritamente virtuais. Temo que o mundo real se torne apenas uma extensão do mundo virtual, com finalidade meramente de preservação da espécie. Pode ser muita inocência da minha parte, mas acredito que não é possível se realizar através do consumo e que a única forma de realização efetiva acontece através das relações afetivas e das cumplicidades profundas. O monitor de um computador é um instrumento que nos permite acesso, inegavelmente, a uma amplitude de informações que nunca teríamos acesso numa vida inteira. Porém, não podemos esquecer que um objeto com tais proporções nunca será capaz de substituir todas e quaisquer experiências que o mundo pode oferecer. Existe muita coisa atrás do monitor. E dos lados também. Assim como atrás, em cima e embaixo.

Insight cibernético

domingo, 14 de setembro de 2008

Ecos Falsos visitam o Rio

Sábado passado, saí do show do Hives (Orloff Five - Via Funchal) aliviada por ter tido a oportunidade de ver novamente um show que prendesse a minha atenção do começo ao fim. Na minha humilde opinião (um tanto prepotente, por sinal), uma experiência desse tipo só vale a pena quando o espetáculo te pega por completo, você perde a consciência de si por alguns momentos e se entrega totalmente à experiência oferecida. Por uns tempos, cheguei a achar que isso era coisa de criança e que a idade me impedia de viver essa entrega. Talvez eu tenha mesmo criado calos e tenha me tornado mais exigente. Mas aconteceu de novo.

A recente redescoberta pelos prazeres da música acabou me levando ao Cine Lapa ontem. A atração da noite era o Ecos Falsos, banda de São Paulo. Já tinha alguns MP3's deles aqui no PC e isso era suficiente para dar moral pros caras, pois eu não cheguei a deletar os arquivos. Logo de cara, já percebi que os meninos se vestem direitinho. Têm aquela preocupação em construir um visual casual. Começa o show. O som da casa ajuda - quando os graves não soam excessivos. A partir daí, é rock 'n roll agitado, bem feito e divertido. Os timbres são agradáveis: agudos explorados pelas guitarras e pelos pratos da bateria. E o baixão segurando a onda. Além da boa música, o carisma segura a banda nos momentos de intervalo pra trocar de instrumento ou pra dar aquela afinadinha na guitarra. Intervalos, aliás, frequentes. Os caras sassaricam pelo palco ao longo do show, trocando de posições e instrumentos. A comissão de frente (leia-se: a galera das cordas) alterna os vocais e, com isso, todos acabam conversando com o público. Piadinhas inteligentes ou infames e discurso firme e bem construído. Provavelmente trata-se de mais uma banda de comunicadores sociais. Essa suposição ganhou forças quando o público foi convidado a se aproximar do palco para pegar brindes gratuitos - sob um humor sutil e simpático. Hipnotizada pela persuasão (usar a palavra "brinde" e "grátis" na mesma frase é capaz de provocar reação até dos mais durões), fui buscar meus brindes na beira do palco: um adesivo e um... santinho?!?!?! E começaram a tocar " O bom amigo Inibié". Na parte de trás do folheto, onde deveria haver uma oração, a letra da música. Genial! De uma forma geral, o show foi recheado por músicas divertidas e bem executadas, por músicos bem entrosados e com uma boa postura de palco, e tiradinhas de bom gosto. Deu até pra sentir a felicidade do baterista brincando com a bateria eletrônica (que, segundo eles, era novidade). Os pontos altos da noite foram: "A revolta da musa", a cover do We Are Scientists e "Reveillon". Aprovadíssimos!

Resenha de fã